![[The Witch: Part 2. The Other One] elenco, trama, significado e por que o filme parece mais um experimento do que uma história de heroína](https://koreadayone.com/wp-content/uploads/2026/03/0-10.jpg)
Aviso: este post tem spoilers importantes.
Se Parasite aperta o espectador pelo lado da humilhação social, The Witch: Part 2. The Other One trabalha numa frequência completamente diferente. É um filme mais frio, mais espalhado e muito menos interessado em te oferecer conforto. Não é aquela sequência feita para repetir a mesma emoção da obra anterior com mais dinheiro e mais cenas de impacto. Park Hoon-jung volta como diretor e roteirista, e isso ajuda a manter a sensação de continuidade, mas o segundo filme claramente não quer apenas reencenar o sucesso do primeiro. Ele quer abrir o mapa, mostrar mais camadas desse mundo e fazer a história parecer maior do que uma única protagonista.
Isso fica claro desde cedo. Em vez de começar com uma trajetória clássica de heroína, o filme apresenta uma garota que desperta num laboratório destruído e sai dali carregando um mistério que nem ela mesma parece entender por completo. Ao chegar ao mundo exterior, ela cruza por um instante com um pedaço de vida comum, mas logo vira o centro de uma disputa entre gente poderosa, grupos violentos e figuras ligadas ao próprio projeto que a criou. O filme não quer só perguntar “quem é ela?”, e sim “o que foi fabricado aqui?” e “o que acontece quando esse experimento deixa de obedecer?”.
A presença da protagonista é uma das partes mais fortes do filme. Cynthia interpreta a garota de um jeito muito contido, e isso funciona demais. Ela não tenta transformar a personagem numa figura carismática ou imediatamente simpática. Em vez disso, faz a garota parecer alguém que ainda está descobrindo como ocupar um corpo, um espaço e uma vida fora do confinamento. Em alguns momentos ela transmite curiosidade. Em outros, parece completamente vazia. E às vezes parece uma ameaça silenciosa que ainda nem foi totalmente ativada. Esse equilíbrio é importante, porque a força do filme depende bastante de a personagem continuar estranha e difícil de decifrar.

Uma das coisas mais interessantes em The Witch: Part 2 é que o filme não corre para tornar essa personagem “identificável” do jeito fácil. Claro que ela tem momentos de suavidade, de curiosidade e até de certo espanto diante do cotidiano, mas a narrativa nunca esquece que estamos olhando para alguém criada, observada, testada e tratada como objeto de laboratório. Mesmo quando ela está quieta, existe uma distância ao redor dela. Não parece exatamente alguém descobrindo a liberdade. Parece alguém entrando em contato com a vida humana comum pela primeira vez, e ainda sem saber como isso deve funcionar.
É aí que Park Eun-bin se torna tão importante. Como Kyung-hee, ela coloca no filme um tipo de calor humano que o resto da história quase evita. Sem essa presença, The Witch: Part 2 correria o risco de ficar clínica demais. Com ela, surge uma pequena zona de afeto, e isso muda bastante o peso emocional do que vem depois. Kyung-hee não é escrita como uma figura perfeita nem exageradamente maternal. Ela parece cansada, prática, firme, alguém com problemas próprios, mas ainda capaz de oferecer acolhimento. Isso faz diferença porque, por um momento, a garota deixa de ser apenas um experimento perigoso e começa a tocar algo parecido com cuidado de verdade.
Sung Yubin, como Dae-gil, ajuda a completar essa sensação. A casa dos dois não entra na história só para cumprir função de roteiro. Ela oferece um contraste real com o universo de laboratório, vigilância e perseguição que domina o resto do filme. E esse contraste importa. Porque The Witch: Part 2 é cheia de personagens que enxergam corpos como ferramentas, riscos ou ativos estratégicos. Quando a garota passa por aquele espaço doméstico, mesmo que por pouco tempo, o filme sugere outra possibilidade de vida. Não diz que ela poderia ser “normal” num sentido simples, mas abre uma fresta para imaginar o que teria acontecido se o mundo deixasse de tentar possuí-la por alguns minutos.

Depois disso, o filme entra com mais força na lógica de perseguição, e é aí que muita gente sente que a história fica mais caótica. Mas esse caos não parece acidental. Em vez de criar um único vilão central e uma linha reta de conflito, o filme coloca várias forças ao redor da protagonista: laboratório, fundadores, executores, perseguidores, criminosos e figuras que operam em níveis diferentes de informação. Todo mundo sabe alguma coisa, quase ninguém sabe tudo, e a garota fica bem no centro dessa confusão. Isso pode deixar a trama mais espalhada do que a do primeiro filme, mas também ajuda a ampliar a sensação de mundo secreto, fragmentado e violento.
Os personagens que cercam a garota existem justamente para mostrar isso. Alguns querem recuperar o controle. Outros querem entender o que ela é. Outros só querem sobreviver perto do poder. Ninguém olha para ela com neutralidade. Quase ninguém a vê primeiro como pessoa. Antes de ser humana, ela já é tratada como valiosa, perigosa, útil, instável. Essa é uma das ideias mais fortes do filme. O poder aqui nunca aparece limpo. Ele já nasce envolvido por controle, medo, posse e interesse.
A ação segue essa lógica. The Witch: Part 2 não constrói as cenas de poder como momentos de triunfo heroico. Quando a garota começa a mostrar o que realmente consegue fazer, a sensação não é de libertação alegre. Parece mais uma falha de contenção. Como se alguma coisa que devia continuar presa tivesse rompido a estrutura que segurava tudo no lugar. Isso muda o jeito como as cenas de luta são recebidas. Elas não são feitas para parecer justas, equilibradas ou bonitas no sentido tradicional. Muitas vezes elas têm um impacto seco, brusco, rápido, quase cruel. E isso combina com o tom da história.

O que eu acho mais interessante, porém, é a maneira como o filme pensa identidade. Em muitas histórias de ficção científica, a pergunta principal é “quem eu sou de verdade?”. Aqui, a pergunta mais desconfortável parece outra: “para que eu fui criada?”. Isso muda completamente a temperatura emocional do filme. A garota não está só recuperando memória ou descobrindo uma habilidade escondida. Ela está caminhando por um sistema que talvez tenha decidido o sentido da vida dela antes que ela pudesse decidir qualquer coisa por conta própria. Isso a torna menos uma escolhida e mais uma arma inacabada tentando existir fora do desenho dos próprios criadores.
É justamente aí que o formato de continuação vira força e limitação ao mesmo tempo. Como segundo capítulo, o filme tem espaço para expandir o universo, conectar mais peças e preparar algo maior. Isso é interessante, porque dá a sensação de que a saga está deixando de falar apenas de uma figura excepcional para falar de uma estrutura inteira de experimentação e poder. Ao mesmo tempo, isso faz com que The Witch: Part 2 às vezes pareça mais interessada em abrir portas do que em fechá-las. Tem espectador que vai achar isso estimulante. Tem quem vai achar frustrante. As duas reações fazem sentido.
A aparição de Kim Dami reforça bem essa ideia. Ela não entra apenas como fan service ou lembrança do primeiro filme. A presença dela diz claramente que este mundo não está recomeçando, e sim se alargando. O filme passa a sugerir que a questão não é mais se existe alguém como Ja-yoon. A questão é quantas existem, quem as fabricou, como essas histórias se conectam e o que pode acontecer quando esses fios começarem a se cruzar de verdade. Isso dá uma energia de expansão muito forte ao filme, mesmo quando ele parece guardar respostas em vez de entregá-las.

Comparando com Parasite, é óbvio que estamos falando de filmes completamente diferentes, mas existe um ponto em comum que eu gosto muito. Os dois se interessam por sistemas maiores do que os personagens. Em Parasite, esse sistema era classe, arquitetura, posição social. Em The Witch: Part 2, o sistema é experimentação, vigilância, controle do corpo e fabricação de poder. O tom é outro, o gênero é outro, a linguagem é outra, mas os dois entendem que a violência não começa só quando alguém bate em alguém. Muitas vezes ela começa antes, no desenho do mundo que cerca essas pessoas.
Park Hoon-jung aposta bastante na atmosfera, mesmo quando a trama fica fragmentada, e isso às vezes funciona muito bem. O filme pode ser elegante, ameaçador e inquietante de um jeito que fica na cabeça. Em outros momentos, parece andar um pouco à frente da própria clareza emocional. Mas nem aí ele me parece vazio. O que sinto é que o filme está procurando uma sensação específica: a ideia de que o mundo em torno da garota já é grande demais, secreto demais e violento demais para ser explicado de forma confortável em uma única narrativa.
E então vem o final, que funciona menos como encerramento e mais como escalada. A última parte não parece feita para entregar fechamento moral ou sensação de círculo completo. O objetivo é outro. É deixar claro que a garota não é o fim da história, e sim um ponto dentro de algo muito maior. Quando o filme revela mais um pouco desse desenho, ele praticamente te obriga a escolher como quer reagir. Dá para se irritar com o fato de que nem tudo é resolvido. Mas também dá para aceitar o que a própria estrutura está dizendo: este universo nunca foi planejado para ser explicado de uma vez só.

No fim, The Witch: Part 2. The Other One chama atenção não porque seja organizada, mas porque é inquieta. Ela te entrega uma protagonista que não cabe direito na ideia de heroína, um universo que cresce mais rápido do que se explica e um centro emocional que só aparece em lampejos antes de a violência voltar a esmagá-lo. Cynthia sustenta muito bem essa estranheza, Park Eun-bin traz humanidade na medida certa e os personagens em volta impedem que a perseguição se reduza a um jogo simples de bem contra mal.
O que mais fica comigo é a recusa do filme em transformar poder em algo limpo. Aqui, habilidade não significa liberdade. Significa projeto, dano, controle, medo e desejo de posse ao mesmo tempo. É por isso que o filme parece mais um experimento do que uma história de heroína. Ele não pede que você comemore alguém se tornando extraordinária. Ele te empurra para uma pergunta mais incômoda: o que sobra de uma pessoa quando o mundo já decidiu, antes mesmo que ela pudesse falar por si, que ela foi criada para ser usada?